sexta-feira, setembro 01, 2006

Cap. 8 (Escrito por Luísa Ricardo)

Reinaldo sentiu chegar o inútil empregado com uma mão entrapada e nem olhou para ele. O velho professor andava lívido, longe dos seus dias de alegria e vivacidade, alheado do que o rodeava, desde o dia horrível em que vira espantado e incrédulo aquele corpo mutilado.Porém, sem o mais leve estremecer de alma, experimentava uma leveza inexplicável e um alívio inesperado invadia-o quase com ternura, pacificando todos os tormentos. Sentia-se outro, apenas uma leve contrariedade marcava o seu presente.
- Tenho de começar...preciso de começar...mas aquela imagem não me sai do pensamento. Como se fora ainda a mais bela, a única e esmagadora imagem de sempre. Teima em me perseguir, quer invadir-me a vida, estrangular de pasmo o meu dia. E sob esse pasmo sepulcral nada posso fazer, nada avança e os livros desordenados sobre a secretária não me perdoam a inércia. Vou começar, digo a cada momento. É hoje, é hoje...mas ai, a contemplação do teu rosto ausente é cada vez mais impressiva e tolhe-me, sabes, tolhe-me os movimentos, qual amarra invisível impossível de desatar.
- Dr. Reinaldo... Dr. Reinaldo... desculpe... ! Desisto. Este hoje nem me ouve….
- Que é que este inútil quer? Só sabe bater com as portas. Já devia ter planificado o trimestre, até o ano todo, mas desconfio que este ano hei-de dar as aulas a martelo...Também, com os imbecis de alunos que me saem na rifa… Estou a ficar farto de tanto mentecapto. Como podem estas bestas chegar à Universidade? Lembrar que tive de prestar todas as provas com distinção... o Latim... saberão eles como lhes haveria de abrir as mentes aperreadas?! Cambada de energúmenos...
Não estava nos seus dias, de facto. Sempre soubera que um dia havia de acontecer o tumulto de há pouco. Qualquer avassaladora tragédia à medida de Adelaide, só dela.
" Não, não deves fazer isso. Repara nas implicações que tem". Respondias sempre que não te importavas e que a tua vida só a ti dizia respeito. Chegava a achar graça à tua rebeldia infantil. Havia sempre nas tuas atitudes uma provocação sem limites, como que a pedir contas a todos, e olhavas com desdém os que te rodeavam e se atreviam a sugerir que estavas errada. Como se não foras criança …
Mais tarde, já adolescente, crescias e tornavas-te uma bela mulher. Tão bela que me fazias corar. Pavoneavas-te pela casa toda, sem te ralares muito com o decoro. As empregadas até se queixavam de tal descaramento, que assim se iam embora, porque ali podiam ser confundidas com uma depravadas... Falava-te então, compreensivo, tolerante, amigo. Acatavas, prometias que não voltavas ao desacato, mas era sol de pouca dura. Aí estavas de novo na primeira oportunidade a revolver meio mundo com as tuas loucuras.
"Não sei que rapariga é esta", mortificava-se constantemente a tua mãe. “Por que há-de ela ser diferente das outras?" A perversidade e excentricidade cedo se tornaram as marcas mais vincadas do teu carácter e em pouco tempo toda a vila conhecia o teu génio. As primeiras vítimas eram os da casa mas começavam a aparecer queixas de todo o lado. Da rua, da escola...sim, da escola, e é claro que os primeiros namorados eram descartados a uma velocidade inadmissível para a época.
"Que fazer? Que fazer? Internar-te num colégio? Pobres freiras. Enfim, tentamos... " Por esta altura, alternavam em ti os períodos de soturnidade e uma energia desenfreada. Nada te amansava. Era então a época de nos pregares partidas. Desaparecias por largo tempo, escondias-te no campo, vinhas à noite, como animal escorraçado pelo escuro. Às vezes, arrependida, abraçavas-me e choravas copiosamente. Prometias mudar. Eu até acreditava. Diziam todos que era o culpado e que apenas a minha aquiescência era responsável por tais desarranjos. Opinavam que te devia bater, castigar, exigir...Menina, para o seu quarto, a pão e água, até resolver mudar, disse-te um dia! Ah, como me arrependi e me doeu...
Mas não havia saída. Fechava-se o aperto em volta do teu carácter e a inabalável decisão teve de ser tomada. No colégio, mantinhas toda a arrogância e provocação. Chegavam ecos da tua beleza extraordinária, dos caprichos que teimavas em manter e não tardou que fosses expulsa. Maior de idade, ficaste finalmente a teu cargo, não sem que isso tivesse efeitos desastrosos na saúde de tua mãe, que não aguentou tanto vexame e desgosto.
De repente, apareceste em Coimbra. Horror, horror, que fazer? Sentia então os meus dias como uma tortura, morrendo lentamente, suspeitando da tua vida e escudando-me na ignorância de todos sobre o nosso parentesco. Um cliente, seria um cliente a mais na tua vida!! A que vergonha me sujeitavas… e bela, meu Deus!, tão bela que contemplar-te fazia doer o coração. E ao mesmo tempo, pássaro enjaulado. O mundo era pequeno para a tua grandeza. Eu sabia-o! Eras superior e ninguém to perdoava. Eras diferente e o único eco que poderias dar dessa diferença era o íntimo impulso de hostilidade para todos nós, que …..
- Dr. Reinaldo…. Snr. Professor Reinaldo…. desculpe, mas é a Polícia… Insistem em falar-lhe…
- Já vou … já vou... Que foi que te aconteceu, imbecil? Caíste?

6 comentários:

André Coelho disse...

Então Luísa? A história não continua? Estou ansioso...

carla afonso disse...

Ora até que enfim isto avança., Boa Luísa.

Joana F disse...

Lindo.

carla afonso disse...

Este compasso de espera entre capítulos deixa-me em franjas!

Há falta de mãos para continuar o projecto ou estamos a testemunhar apenas um impasse literário?

Luis disse...

Neste momento há falta de mãos. Aceitam-se propostas.

Anónimo disse...

Bolas! Nada???
mandei o projecto para este mundo e o outro!
Vou pensar em mais mãos...