quinta-feira, agosto 31, 2006

Cap. 7 (Escrito por Carla Afonso)

Ele não sabe explicar a si próprio, porque é consigo mesmo que ele apenas e desde há muito já só fala, desde começou a ter a sensação de que a vida se lhe ia escapando como areia seca por entre dedos abertos.
Sabe, isso sim e bem demais, quando começou a sentir-se desintegrar, como que apodrecendo, a partir de dentro.
Lembra-se bem desse momento; recorda-se dele como de uma revelação.
Uma noite de insónia. Uma agitação febril. Uma inquietude que se foi instalando como um visitante indesejado que vem para ficar. A falta de posição na cama, o frio enregelante de um quarto mal aquecido nas húmidas águas furtadas do edifício antigo mais barato que encontrou em Coimbra.
Levanta-se então da cama para passar o rosto quente e transpirado pela água fria que tem na jarra do lavatório de ferro que constitui um dos seus poucos haveres.
Bebe um pouco, apesar do sabor já ferroso, olha-se ao espelho e mal se reconhece nas olheiras fundas que lhe sulcam a face de má cor.
É então que repara no sabão meio desfeito pela água depositada no fundo da improvisada taça que lhe serve de suporte. Também não sabe explicar porque viu nesse pedaço de sabão semi - liquefeito mais um sinal da desintegração eminente do seu próprio corpo. Sabe apenas que foi nesse momento, nesse milésimo de segundo que lhe viria a transformar os dias, que percebeu que tinha que fazer alguma coisa para estancar a sangria de vitalidade de que acredita estar a ser vítima. Nunca lhe passou sequer pela cabeça que a queda acentuada de cabelo, o eczema que lhe alastra na pele e a tosse persistente sejam devidos à má alimentação e à insalubridade do local que habita.
Nunca. Na sua visão simplista, lê isto como meros sinais de uma auto-derrocada eminente que ele tem que aprender a escorar.
Há muito que se sente confuso, dividido, à deriva. Pior que isso, desamparado num mundo estranho e hostil. A verdade é que a vida não lhe tem corrido de feição.
O patrão, um comerciante bruto e prepotente, já o repreendeu várias vezes pela demora e pela troca nas entregas dos tecidos às suas clientes. Quase todas de classe média; algumas delas, as rameiras de maior sucesso da casa da célebre D. Isaura.
Da sua terra natal foram chegando, através de cartas mal garatujadas que se afadigou a tentar ler com os poucos conhecimentos que lhe foram veiculados na sua infância de muito trabalho e pouco investimento no saber, ecos de que a saúde da mãe piorava todos os dias. A tuberculose não perdoa os pobres.
A noiva que deixou em terras serranas do interior já lá vão três longos invernos, cansou-se de acreditar no sonho alimentado por promessas regulares; o tempo não espera disse-lhe ela, e ela não lhe reservaria a mão e o resto do seu corpo pelo resto dos seus dias.
Com o António da Égua, viúvo abastado a precisar de criada para todo o serviço, a rondar-lhe a casa e o leito, o ultimato caiu nas mãos do homem e queimou-lhe o entendimento como ferro em brasa.
Ele ainda lhe pediu algum tempo, mas também este se esgotou sem que o pé-de-meia prometido se tivesse concretizado. A Amália dos seus amores casaria semanas depois com alguém capaz de lhe satisfazer, de uma só vez, as suas necessidades: casa, mesa e a possibilidade de ter os seus próprios filhos, preocupação constante das mulheres que sentem a fúria uterina da procriação. Pouco importou a Amália que o seu novo lar estivesse pejado com os retratos da defunta antecessora; que os pesados reposteiros tivessem sido escolhidos por ela e para ela e que os móveis da agora “sua” Quinta da Boavista lá tivessem chegado pela mão da outra, a mais temível das rivais por já ter desencarnado deixando atrás de si um exagerado rio de qualidades mitificadas, como acontece muitas vezes nestas coisas da viuvez.
O homem chorou até lhe não ser possível verter mais lágrimas; durante esse tempo transformou a sua dor em desamor, em raiva. Em ódio cego pelo sexo oposto. Até a sua virgindade, preservada religiosamente para a ofertar a Amália, na noite de núpcias, lhe doía agora como se da maior inutilidade se tratasse.
Há muito que ouvia falar, em surdina claro, nos dotes sensuais da puta Adelaide. Como se isso, por si só, não bastasse para lhe tentar as carnes, das últimas vezes que lá foi levar-lhe os cortes de tecidos vistosos com que encadeava depois uma horda de homens babosos e babados, ela sorriu-lhe despudoradamente. Como que a convidá-lo para as lides da cama.
E se a curiosidade de experimentar os prazeres ilícitos não se tinha tornado mais forte que a sua vontade férrea de a eles resistir, isso devia-se apenas ao respeito, sim porque era de respeito que se tratava, que tinha pela noiva e pela necessidade de poupar o máximo de dinheiro que fosse capaz.
Agora já nada disso fazia sentido e estava ansioso por se iniciar nos braços da rameira mais requisitada de uma certa Coimbra decadente.
Depressa viria a descobrir que a Adelaide seria impotente para o livrar da sua inexplicável impotência, mas o alvo perfeito para aplacar a sua fúria contra as mulheres.
Não sabe explicar porque a abriu de alto a baixo, a golpes de canivete, objecto que traz no fundo dos bolsos desde criança. Ou como foi capaz de o fazer, logo ele, que nunca foi capaz sequer de esventrar um porco.
Lembra-se vagamente de que ela, a tal Adelaide de sangue quente e pernas grossas, se riu do seu sexo ridículo, de tão murcho e envergonhado. Ria-se descontroladamente; como se, de repente, ela própria se tivesse dado conta de que os seus apregoados dotes não mereciam ter tal fama. Pois se nem o desejo de um virgem ela acendia!
O homem ainda tapou os ouvidos tentando não ouvir o que lhe pareceu ser uma suprema humilhação, mas não foi capaz. Tudo o que ele queria era que ela parasse de se rir dele. O homem vislumbrava nesse riso estridente as gargalhadas que imaginava que alguns dos seus conterrâneos tivessem dado no casório da sua amada. Odiosas gargalhadas dos invejosos que se sentem ressarcidos das suas pobres vidas, quando assistem de camarote à desgraça alheia.
Golpeou-a repetidamente e, passado o horror dos primeiros salpicos de sangue, foi descobrindo que a sua humilhação se desvanecia como nevoeiro numa manhã que teima em tornar-se ensolarada.
Mais do que isso; à medida que a via ir-se embora, apagar-se de vez, sentia-se gradualmente mais enérgico, mais palpitante, mais vivo; até a erecção que o tinha traído minutos antes, estava agora no seu pleno. Foi revigorado e sobretudo vingado que abandonou o local do crime. Por pouco não foi surpreendido por um outro cliente, ávido dos prazeres escondidos que por lá se compravam.
Nessa noite dormiu o sono dos justos, confortado pela sensação de que algo de profundamente visceral tinha sido curado dentro do seu próprio corpo.
Tinha que repetir a sensação de embriaguez que aquele inesperado episódio lhe tinha provocado.
Dias depois, voltaria à casa da D. Isaura disposto a tudo. A tudo, tudo, já não. Se a rameira que contratasse desta vez o não servisse como ele desejava e não lhe acordasse a virilidade em três tempos, não lhe daria qualquer oportunidade para eventuais gozos; pelo menos serviria para lhe curar a saúde.
Quando a Angélica, a mais digna sucessora da infeliz Adelaide, cruzou a porta do quarto onde tantas vezes se abriu para atender os clientes que a escolheram como se de um traço de carne se tratasse, estava longe de imaginar que tinha o seu destino marcado.
Confessou a uma colega de lides na casa mais frequentada da cidade que agora se sentia insegura e hesitante, mas a vida continuava e a ama dos dois filhos que mantinha afastados do seu vergonhoso dia a dia não se deixaria amolecer se a renda não lhe fosse entregue na data certa.
Para o homem, pouco lhe importou que ela fosse menos ardente, sim, mas mais paciente e doce que a sua defunta colega. Olhou-a, já nua, indiferente aos seios fartos e às ancas roliças que tantos outros homens gostaram de tocar sem cerimónias. Observou-a tentando contabilizar mentalmente a força vital que o sangue derramado dela lhe poderia oferecer.
A lâmina recém afiada do canivete de bolso atingiu-a primeiro no peito; entrou nele uma e outra vez, rasgando-lhe traiçoeiramente as entranhas. Ela ainda tentou gritar, mas ele era mais forte e tapou-lhe a boca, imobilizando-a com esse mesmo braço. Os gritos dela, se houve quem os tivesse ouvido, foram confundidos com os muitos que por lá se produziam, por razões bem diferentes da dor.
A Angélica, bem constituída e bem alimentada pelas iguarias trazidas pelos seus amantes mais generosos, tentou defender-se do selvático ataque empurrando o agressor contra os móveis. O homem não estava à espera de reacção, desequilibra-se e cai, trespassando a sua própria mão. O corte, fundo e feio, sangrou abundantemente. A visão do seu ferimento, enlouqueceu-o de raiva.
A estocada final teve como destino o coração, que ele depois faria questão de extirpar e lançar, como banquete, aos ratos. Angélica foi enfraquecendo e não teve tempo de ver que o brilho dos olhos do seu carrasco se foi tornando mais forte à medida que a sua erecção crescia.
Antes de abandonar o local, saltando, mais uma vez, para os telhados vizinhos através da janela do primeiro andar, o homem pendurou cuidadosamente as roupas da sua vítima numa cadeira. Por ordem. Primeiro a saia, grossa de folhos; depois a blusa rendada e casaquinho de lã; só depois o saiote, a combinação, as cuecas de pano e as meias de elástico.
No parapeito da janela de guilhotina com pequenos vidros, brilha um arrepiante rasto de sangue que se prolonga pelas telhas mais próximas.
O homem está eufórico; amanhã pensará na desculpa que vai ter que apresentar ao seu patrão, quando este o vir chegar com uma mão entrapada.
No chão do quarto, o mar de sangue mostrará, a quem lá chegar primeiro, a ferocidade do assassínio.

8 comentários:

Joana F disse...

Fico contente que o romance esteja a andar para a frente. Aguardo...

Joana F disse...

Uma perspectiva alternativa. Gostei. :)

Rui Pedro disse...

Isto está-se a complicar. Venha o próximo.

Gustavo disse...

Adorei o projecto. vou participar.

Márcia Nazareth disse...

Boa! Parabéns Carla.
Adorei o teu conto.
A tua criativa "revelação".
bj*

Repórter Oink disse...

:)

Hum... poético e inspirador!

Sinto-me vítima do agora célebre "trauma de Estocolmo"...

Coitado do assassino, no fundo é apenas um triste e frustado estripador...

Boa!

Kahkba disse...

Parabéns a todos ! Descobri este blogg quase por acaso e vi qe cada capítulo é, já por si, uma obra de arte.
Estou a adorar le-los *

Sara Trigo

Nilredloh disse...

Excelente!