sábado, novembro 11, 2006

Capítulo 11 (Escrito por Gonçalo Santos)

Caiu a noite e Mário Mendonça dirigiu-se à famosa “Isaurinha”. À falta de ideia melhor, decidiu confrontar directamente Isaura com o facto de a ter visto, juntamente com o Prof. Reinaldo, a transportar o corpo de Adelaide numa carreta. Ocorrera-lhe por diversas vezes confrontar directamente o Prof. Reinaldo, mas isso sempre lhe pareceu arriscado. Porém, quando lhe ocorreu a ideia de confrontar Isaura, ficou tão agradado que lhe deu vontade de gritar “Eureka!” a plenos pulmões.
Através da forte chuva que caía, Mário vislumbrou finalmente a entrada do mais famoso bordel de Coimbra. Não havia ninguém na entrada mas a porta estava apenas encostada, provavelmente por descuido de quem entrava ou, talvez, pela falta de hábito de fechá-la. Fosse como fosse, Mário resolveu empurrá-la, já que não sentia necessidade de bater para entrar naquele lugar e também se limitou a deixá-la encostada. Lá dentro surpreendeu-se por ver tudo às escuras, mas ficou ainda mais surpreendido quando ouviu uma voz familiar que provinha do andar de cima: era o Prof. Reinaldo. Apurou o ouvido e distinguiu também uma outra voz que dialogava com ele. Era Isaura, a proprietária daquele bordel. Mário optou por subir as escadas, silenciosamente, para poder escutar convenientemente a conversa. Era a sua grande oportunidade de saber o que escondiam aqueles dois! As vozes desciam do quarto de Isaura, uma divisão à qual a maior parte dos frequentadores do local nunca tinha acesso. Mário aproximou-se da porta e pôs-se à escuta.
“Isaura, não sabes como fiquei por me teres tratado tão mal! Ainda bem que fizemos as pazes, agora. Sem ti já não vivo mais! Sinto o cheiro do teu corpo no meio de todos os tecidos da minha loja e imagino-me a despir-te magníficos vestidos de todos eles.”
“Podes parar.” - disse Isaura.
“Achas que estou a brincar? Achas que são doideiras de um homem que já devia ter aprendido a ser mais maduro? Pois bem, eu devia ser mais maduro mesmo, mas contigo não consigo. Consegues fazer de mim o melhor e o pior dos homens. Fico louco quando me tratas mal.” “Mas hoje não te tratei mal, pois não?”
“Não, realmente não. Sinto-me um homem novo. Tu fazes coisas que mais nenhuma mulher sabe fazer.”
“Então pára de lamechisses. Eu preciso de um homem, não de um desses rapazolas inseguros que frequentam o meu estabelecimento. Repito aquilo que te disse antes: desiludiste-me, Reinaldo! E não faças essa cara! Vais voltar ao rapazola inseguro? Se vais, podes sair já deste quarto!”
“Porque me tratas assim, Isaura?”
“Sabes muito bem. Devíamos ter deixado tudo seguir o seu rumo normal. Para que quiseste esconder o corpo da Adelaide? Porque não contaste à polícia tudo o que viste? Porque tiveste medo, foi o que foi. Por fora pareces forte e impiedoso, mas por dentro és cobarde e medroso, como só eu sei, e a tua cobardia está a fartar-me. Repito, estás a a fartar-me! Pões-nos em perigo aos dois!”
O Prof. Reinaldo sentiu a raiva e o ódio a querer apoderar-se dele. A sua cara começou a ficar lívida e o perigo para Isaura ficou iminente. Ela, experiente, sentiu a mudança e procurou deitar água na fervura.
“A verdade é que me irritas, mas, no fundo, não há mais nenhum homem para mim além de ti. Essa é a verdade! Mas porque me irritas dessa maneira? Porque nos colocas em perigo? Parece que tens alguma cumplicidade com esse teu misterioso assistente que desencantaste sabe-se lá onde...”
Mas o Prof. Reinaldo já não ouvia mais nada. A sua alma estava tolhida por uma raiva infinita que o impelia a matar.
“Mas que olhar é esse, Reinaldo? Se queres convencer-me que podes meter medo a alguém estás a conseguir convencer-me. Podes parar. Que navalha é essa? Meu Deus, enlouqueceu de vez! Pára com isso! Agora, estás realmente a meter-me medo!
Mário não aguentou mais e irrompeu no quarto de Isaura.

3 comentários:

Daniela disse...

Pronto... agora é que foi!:)

Boa, Gonçalo.

quem é o senhor(a) que se segue ... ?

carla afonso disse...

Bela reviravolta, Gonçalo.
Isto é que é facilitar a vida ao próximo!
Parabéns.

Anónimo disse...

Obrigado pelas palavras simpáticas, Carla e Daniela! Tive duas ideias-chave para escrever este capítulo: 1) voltar a chamar o nosso herói terceiranista, Mario, para o centro da acção e 2) achei que era uma boa altura para um pico de suspense.
Espero que também tenha deixado uma boa ponta solta para o(a) escritor(a) que se segue.