quarta-feira, agosto 23, 2006

Cap. 4 (Escrito por Mónica Almeida)

O funeral de Adelaide da Conceição, realizou-se ontem, segunda-feira, 13 de Fevereiro de 1905, na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios.

Fechou a porta da pensão com cautela e seguiu em direcção ao baile que havia junto ao coreto.
-Merda! – de súbito, o céu foi iluminado pelos relâmpagos e a gritaria estridente das gotas de uma chuva tempestuosa parecia furar-lhe os tímpanos. Sem chapéu alto ou casaca, olhou em redor, em busca de um abrigo. Refugiou-se na entrada da Igreja, a casa de um Deus que na noite de Domingo abrira as portas ao putedo de Coimbra para celebrar o velório de Adelaide.
Os minutos passavam e à porta do templo cristão, Mário tiritava de frio. Pensava nos seios leiteiros da prostituta que acabara enterrada sem coração. E o Doutor Reinaldo, presente naquele instante de ressurreição... será inconveniente falar-lhe amanhã, depois da aula?
Perdido nos próprios pensamentos não deu pelo aproximar de um vulto que saía da Igreja. Ao longe, alguém corria, apressado, tentando fugir à brutalidade da trovoada. À medida que o ruído dos passos se aproximava, reconheceu o rosto aterrorizado de dona Isaura, que veloz, parecia apontar na sua direcção.
- Pelo amor de Deus, não! Menino Mário, fuja! Fuja! – o jovem levantou-se, tentando compreender o que lhe gritava a assustada meretriz e nesse momento perdeu os sentidos, atingido por um vaso atrevido e pesado que alguém lhe enterrara, com força, na nuca.
- Até breve, Dr. Mendonça – ouviu-se então.

Teu coração não palputa
Triste puta assassinada
Tanto prazer e gosto
Para acabares assim estripada...

Dois jovens tocavam viola enquanto um grupo de rapazes improvisava a nostálgica cantata. Beatriz choramingava na cadeira do canto.
- Que ordinários! Ainda brincam com a morte da desgraçada...
- Oh Bia, não sejas piegas, estamos aqui para nos divertir! – e Carolina, fazendo-lhe um carinho fraternal, observava os rapazes com interesse – estranho o Mário ainda não ter chegado...
- O Mário! O Mário! Bem sei que andas perddida de amores pelo doutorinho!
- Eu? Deus me livre! Nem que me aparecesse à janela eu lhe dava atenção...
- Ora muito boas noites, senhoritas!
Zé Onório, enrolando as pontas do bigode, cumprimentou as raparigas com uma vénia ligeira e voltou-se para Beatriz:
- Concedei-me o prazer de uma dança ao ritmo desta canção!
- Não me parece que o momento seja oportuno, José... – reclamou, olhando de lado para a mãe que a fitava com desdém.
- Não aceito um não como resposta – e sério, estendeu-lhe a mão – tenha a gentileza.
Carolina observou as saias amarrotadas da amiga a serem puxadas para a dança por aquele matulão cambaleante. Tão lindo e ruim... e um ciúme ligeiro invadiu-lhe o âmago. Traidora! Desde que entrou na Universidade parece uma cortesã! Empenhada nestas conquistas baratas, que vergonha! Doutora da vida, é o que é! Amiga da puta, o Diabo a tenha, que a mim ela não engana! Com pena da morte de uma destruidora de lares... p’ráquilo!!! E com desdém contemplava o espectáculo da dança do par, próximos, quase mesmo amantizados, mesmo nas barbas da mãe. Que indecência!
- Bia, não tolero tanta incerteza! – o estudante fixava a amada – parto esta noite para Lisboa. Vens comigo!
- Estás doudo! – e a rapariga tombou – que seria de minha vida? Sabes da minha condição!
- Não me importa! Sem a Adelaide não há quem nos valha!
- Pois te digo que para mim, Deus a tenha, só agradeço aos pobres bichos que lhe roeram o coração... é da forma que não leva as minhas dores para o céu...
- Ou para o fundo da terra, que os anjos não têm sexo!
Escandalizada, Beatriz recuou:
- Como ousas, grosseirão?
- A tua inocência perturba-me, amor, ambos sabemos o alívio que esta desgraça nos trouxe... pelo menos não nos descobre a situação! Já não temos testemunhas...
E erguendo a moça para o lado, fez uma vénia e aplaudiu a canção.
Preparando-se o homem da gaita para tocar, a amante ainda perguntou “que fuga planejas, amor?”, mas a resposta foi interrompida pelo punho erguido do Manelito, que embriagado, se lançou ao nariz de Onório:
- Esta é pelas aias maviosas, sacana!
Entre sangue, pontapés, socos e uivos, a mãe da universitária arrastou-a por um braço. Haja decência! Apesar de se saber em beneficiada situação, a rapariga temeu a severidade da tutora. Apesar da sua educação liberal, assomava-se um castigo medonho.

Onório! Onório! Vais-te e eu, que me resta nesta desgraçada situação?
O jovem, caído por entre as pisadelas dos borrachos que se espancavam, nem tão pouco a vislumbrou. Ao lado, Carolina sentia-se de certa forma vingada mas lá nas suas profundezas era Mário que lhe causava aflição. Onde estás, Mário? Onde estás? E de braços colados aos da mãe ambas as amigas fungavam, sem motivo aparente.

Mário acordou amordaçado, de mãos e pés atados a uma cadeira.
Doía-lhe a cabeça, como se vitimado pela maior ressaca da vida. Em redor, escuridão. Ao fundo, umas vozes sussurravam...

7 comentários:

Rui Pedro disse...

Estou admirado com o desenrolar da acção. Dá vontade de ler sempre o próximo. Muito bom trabalho.

Rui Martins Borges disse...

Yohooo... Isto está a ir bem!

cris disse...

Uma autêntica viagem no tempo, gostei bastante!

Luisa C. York disse...

Não percebi certas e determinadas ligações de tempo e espaço.Mas possivelmente o que "esta para vir" junte tudo na perfeição que se tem verificado até agora.

André Coelho disse...

Diabos! Ia agora fazer o upload do meu capítulo 4 quando notei que alguém tinha-se antecipado.
Vou tentar ser mais rápido hoje.
André Coelho

Luis disse...

André, ainda ninguém começou o capítulo 5, vou reservá-lo para ti.

Anónimo disse...

Viva Luís, tenho a impressão e o ávido desejo que o meu capítulo 5 já seguiu. Todavia, tenho tido várias mensagens de erro que, assim, não confirmam o envio. Oxalá tenha sido bem sucedido, caso contrário, tento de novo. Obrigado pela reserva de espaço.
@braço, André.