domingo, agosto 27, 2006

Cap. 6 (Escrito por Jorge Roque)

- Isto está cheio de pontas soltas, chefe. - resmuneou Abílio encostado à secretária do chefe.
- Então temos de começar a uni-las, rapaz. Não achas? - rematou o chefe, Aníbal Cavaco, inalando o tabaco barato para que tinha posses, refastelado na cadeira com os pés em cima da secretária. - O que é que sabemos?
- Muito pouco, chefe, muito pouco. - lamentou-se enquanto sorvia o fumo do tabaco expelido por Aníbal, à falta de verba para fumo seu.
- Recapitula, Abílio, recapitula - insistiu o chefe - que caso este.
- Se o chefe insiste... Ora bem, - desencostou-se da secretária e começou a andar de um lado para o outro, enumerando com os dedos - uma prostituta de nome Adelaide foi brutalmente assassinada na madrugada do passado Sábado para Domingo. Ninguém testemunhou o crime. As duas pessoas que descobriram a vítima já foram interrogadas. Uma prostituta do estabelecimento que acompanhava um estudante de medicina ao quarto da Adelaide. Parece que era famosa essa Adelaide.
- Bem sei - deixou escapar o chefe, para logo corrigir atabalhoadamente, - quer dizer...já ouvi falar... Alguns rapazes aqui do posto vão lá.
Abílio ignora a atrapaçhação do chefe e prossegue. - Esses dois eram uns tais de Angélica e Mário Mendonça.
- Respectivamente. - Completou o chefe dando mais uma passa sôfrega no cigarro que mantinha um enorme fio de cinza precariamente equilibrado nas mãos dele.
- Exactamente. A puta...
- A dona Angélica - interrompeu o chefe.
- A dona Angélica estava em estado de choque, completamente catatónica...
- O que quer dizer isso?
- Não sei. Foi o que disse o médico.
- Claro, claro. Catatónico. Já sei que estado é. A minha sogra costuma ter desses achaques. Fica meses sem falar, graças a Deus.
- Sorte a sua, chefe. Bem precisava de uma sogra assim. Continuando, a dona Angélica nada disse, devido a esse facto. O estudante, o tal Mário Mendonça foi de grande ajuda. O corpo tinha o ventre completamente esventrado e o coração foi retirado e colocado numa bandeja na mesinha de cabeceira. Também o útero foi removido, mas não se encontrou. Apesar de tudo isso há um factor curioso.
- E qual é? - O chefe mirava o enorme fio de cinza que pendia do cigarro.
- A roupa dela não tinha uma pinga de sangue e estava imaculadamente dobrada numa cadeira.
- Interessante. Nem uma pinga de sangue?
- Nem uma.
- Estamos aqui perante um assassino que por um lado abre o corpo todo e por outro gosta de organização.
Abílio ouvia atentamente o raciocínio do chefe na esperança que aquilo levasse a algum lado, mas Aníbal não disse mais nada.
- Entretanto, parece que não se encontrou mais nada de relevante na mansão da Dona Isaura que reabriu ontem.
- Mansão? - inquire o chefe admirado.
- Sim. Este caso era do Moreira, que entretanto foi transferido para outra comarca, eu nunca lá fui. Disse-me que era uma mansão. Aqui está na compilação do caso, pode ver, - Abílio mostra um molho de papéis ao chefe e aponta. - Está a ver? Esta adenda, pagina 13 do capítulo 5. Ontem até serviram champanhe de borla e as mulheres foram de graça.
O chefe levantou-se com os papéis na mão. - O Moreira é um cabrão.
- Então porquê, chefe?
- Sempre me quis lixar. Temos de conferir todos estes factos novamente. Vamos fazê-lo nós os dois, sem interferências exteriores.
- Não estou a perceber, chefe.
- Ó rapaz, o bordel da dona Isaura é um barraco e não uma mansão. Aquilo tem três andares a cairem de podres. E o champanhe era zurrapa. Do pior que já bebi.
Um silêncio constrangedor baixa sobre a sala do posto de polícia durante alguns momentos.
- Ora bolas, chefe. Então temos de nos pôr a andar. Daqui a nada o Casimiro chateia-nos a pinha. Quer resultados.
É nesse momento que entre Casimiro, o mais graduado da cidade de Coimbra, resposável pela baixa taxa de criminalidade. Pelo menos enquanto não a contabilizarem pode sempre gabar-se disso. Gosta de que lhe chamem capitão.
- Então Aníbal. - cumprimenta com um vozeirão. - Há novidades?
- Ainda não, capitão. Recebi o caso ainda há bocado.
- Preciso de resultados rapidamente. Tenho o governador em cima de mim. Mas isto está a complicar-se.
Aníbal e Abílio entreolharam-se.
- Como assim, capitão? Há algum problema?
- Está lá fora o estudante, o Mendonça.
- O que a encontrou?
- Esse mesmo. Diz que o prenderam há quatro dias numa barraca depois de o terem agredido, mas conseguiu escapar-se. E na terça-feira viu um professor lá da faculdade levar o corpo da defunta numa carreta, mas não sabe para onde.
- Mas ela não foi enterrada na segunda? Veio no jornal.
- Foi. Eu estive lá. - assumiu sem rodeios. - Vamos ter de exumar o corpo. Ver se está lá ou é delírio.
- Isto está mesmo complicado. - desabafou Abílio.
- Vamos recolher já o depoimento dele. Temos de ver que professor é esse e quem o prendeu. - afirmou Aníbal. Depois inquire pensativo - Ouça lá, porquê que ele levou tanto tempo a vir cá?
- Parece que esteve a fazer investigação por conta própria. - Informou o capitão. - Saquem-lhe a informação toda.
Nesse instante um homem entra a correr no gabinete.
- Capitão! Capitão! - grita esbaforido.
- Que foi homem? - perguntou no mesmo tom. - Acalme-se que lhe saem os bofes pela cara.
- Mataram outra.
- Mataram outra quê?
Os três homens alarmaram-se.
- Outra meretriz, capitão.
- Ora bolas - deixou escapar Abílio.
Os três homens olharam-se e depois o capitão Casimiro olhou para o portador da notícia.
- Sabe quem era?
- Dizem que se chamava Angélica.

4 comentários:

Rui Pedro disse...

Inteligente arrumação de história.

Joana F disse...

Está cada x melhor

André Coelho disse...

Muito bom. O conto estava a precisar de uma arrumação e esta está óptima. Boa!

Micaela Pedro disse...

Nada melhor que introduzir a polícia.Diferente e imaginativo, dá realmente a sensação de que todas aquelas deixas, pela crueza, apenas poderiam ser proferidas pela autoridade.Bom encaminhamento e entrada de personagem. Jorge...Parabéns.